Bets fazem um em cada cinco apostadores mineiros reduzir consumo, aponta FCDL-MG
O dinheiro destinado às apostas esportivas já interfere nas decisões de consumo de parte dos mineiros. Pesquisa realizada pela Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Minas Gerais (FCDL-MG), com consumidores de todo o estado, mostra que 21,4% dos entrevistados que apostam ou já apostaram em bets deixaram de consumir produtos ou serviços, como alimentação, lazer e compras, para destinar recursos às plataformas. O levantamento também aponta que 19% desse público já se endividou ou atrasou contas em razão das apostas.
Os resultados colocam em evidência uma disputa pelo orçamento das famílias, com reflexos potenciais sobre o comércio e os serviços. Entre os consumidores que já tiveram contato com as bets, o gasto médio informado é de R$ 290,83 por mês. Metade afirma ter tido prejuízo financeiro, enquanto 28,6% relatam lucro e 21,4% consideram o resultado indiferente.
Para o economista da FCDL-MG, Vinícius Carlos Silva, os dados mostram que o avanço das apostas precisa ser analisado também sob a perspectiva da economia real. “Quando o consumidor deixa de comprar um produto, frequentar um restaurante ou utilizar um serviço para direcionar parte da renda às apostas, há um efeito direto sobre suas escolhas de consumo. O comércio e os serviços dependem da circulação desses recursos para manter suas atividades, gerar empregos e movimentar a economia”, afirma.
Gasto mensal e perfil dos apostadores
Do total de consumidores entrevistados, 16,7% afirmaram que apostam ou já apostaram em bets, enquanto 83,3% disseram nunca ter utilizado essas plataformas. Entre os que já apostaram, os homens representam 61,9% e as mulheres, 38,1%.
O levantamento também identificou diferenças no valor destinado às apostas. O gasto médio mensal informado pelos homens é de R$ 342,88, ante R$ 206,25 entre as mulheres, uma diferença de aproximadamente 66%.
Em relação à frequência, 35,7% dos apostadores afirmam apostar ou ter apostado mensalmente, 26,2% raramente, 21,4% diariamente, 14,3% semanalmente e 2,4% anualmente. Os dados consideram tanto pessoas que apostam atualmente quanto aquelas que já apostaram, conforme a pergunta aplicada na pesquisa.
“É importante observar que não estamos falando apenas de uma despesa eventual. Há consumidores que incorporaram as apostas à rotina e destinam a elas uma parcela recorrente do orçamento. Quando esse gasto passa a competir com despesas essenciais ou compromissos financeiros, o impacto deixa de ser individual e passa a ter consequências mais amplas para a economia”, avalia Vinícius Silva.
Prejuízo, endividamento e meios de pagamento
A percepção sobre os resultados financeiros reforça o alerta: 50% dos apostadores dizem ter tido prejuízo, 28,6% acreditam ter obtido lucro e 21,4% consideram que o resultado foi indiferente. Além disso, 19% relatam já ter contraído dívidas ou atrasado contas por causa das apostas.
O Pix é o meio de pagamento predominante, utilizado por 77,6% dos entrevistados que apostam ou já apostaram. O cartão de crédito aparece com 14,3%, seguido pelo cartão de débito, com 8,2%.
Segundo a FCDL-MG, a facilidade de acesso e a rapidez das transações tornam ainda mais importante a conscientização sobre os riscos financeiros associados às apostas. A entidade destaca que os resultados não permitem estimar o volume total de recursos retirados do comércio mineiro, mas evidenciam que parte dos consumidores já substituiu gastos em produtos e serviços por apostas.
“Nosso objetivo é contribuir para um debate responsável, baseado em dados. Não se trata de julgar o comportamento individual, mas de compreender como as bets afetam o planejamento financeiro das famílias e a capacidade de consumo. A educação financeira e a informação são fundamentais para que as pessoas conheçam os riscos e não comprometam recursos necessários ao seu sustento e às suas obrigações”, conclui o economista.
Principais resultados da pesquisa
- 16,7% dos entrevistados apostam ou já apostaram em bets.
- R$ 290,83 é o gasto médio mensal informado pelos apostadores.
- 21,4% já deixaram de consumir produtos ou serviços para apostar.
- 19% já se endividaram ou atrasaram contas por causa das apostas.
- 50% afirmam ter tido prejuízo financeiro.
- 77,6% utilizam o Pix como meio de pagamento.
- 21,4% apostam ou apostavam diariamente.
Confira a pesquisa completa
Você aposta ou já apostou em Bets?
| Sim | 16,7% |
| Não | 83,3% |
Daqueles que apostam ou já apostaram, por gênero:
Feminino 38,1%
Masculino 61,9%
Com que frequência você realiza ou realizava essas apostas?
| Anualmente | 2,4% |
| Diariamente | 21,4% |
| Mensalmente | 35,7% |
| Raramente | 26,2% |
| Semanalmente | 14,3% |
Quanto você costuma ou costumava gastar com esse tipo de aposta por mês?
R$ 290,83
Por Gênero, quanto você costuma ou costumava gastar com esse tipo de aposta por mês?
Feminino R$ 206,25
Masculino R$ 342,88
Como você faz o pagamento das apostas?
| Cartão de Crédito | 14,3% |
| Cartão de Débito | 8,2% |
| Pix | 77,6% |
Comparado ao que você já gastou nas Bets, você acredita que teve?
| Indiferente | 21,4% |
| Prejuízo | 50,0% |
| Lucro | 28,6% |
Você já deixou de consumir produtos ou serviços (alimentação, lazer, compras) para apostar?
| Sim | 21,4% |
| Não | 78,6% |
Você já se endividou ou atrasou contas por causa de apostas em Bets?
| Sim | 19,0% |
| Não | 81,0% |
Campanha de conscientização
Paralelamente aos resultados da pesquisa, a entidade também lançou uma campanha voltada para a conscientização do tema.
Com o conceito “A casa sempre ganha. E o seu bolso?”, a campanha parte de uma provocação para estimular a reflexão sobre como decisões financeiras podem afetar não apenas o orçamento individual, mas também as famílias e a capacidade de consumo, deixando claro que apostar não é investir.
A abordagem também amplia o olhar para os possíveis reflexos no comércio e na economia local. Quando parte significativa da renda é comprometida, a capacidade de consumo pode ser reduzida, afetando a circulação de recursos e produzindo impactos que ultrapassam o ambiente doméstico.
Por isso, a campanha tem a educação financeira como principal caminho de prevenção. Ao longo dos conteúdos, serão abordados temas como organização do orçamento, consumo consciente, endividamento, inadimplência, família e escolhas financeiras.
A iniciativa também reforça o papel das CDLs como agentes de informação e conscientização em suas comunidades, levando o debate para empresários, consumidores e população em geral.
Mais do que falar sobre apostas, a campanha busca estimular uma reflexão mais ampla sobre dinheiro, prioridades e escolhas, contribuindo para comunidades mais informadas e preparadas para lidar com suas decisões financeiras.
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